Rede Economia e Feminismo

autonomia econômica para as mulheres

A luta anti-racista, anti-capitalista e o feminismo

Este artigo está publicado em um outro caderno da SOF intitulado “Economia Feminista“.  Mas que ainda não está disponível on-line.

A autora tenta articular de forma muito interessante as pautas anti-capitalistas, anti-racistas e feministas.

Boa leitura!!

POR QUE OS/AS ECONOMISTAS FEMINISTAS/ MARXISTAS/ANTI-RACISTAS DEVEM SER ECONOMISTAS-FEMINISTAS-MARXISTAS­ANTI-RACISTAS*

 

Julie Matthaei**

 

Em seu artigo no primeiro número da Feminist Economics, a filósofa Sandra Harding defendeu que, para adquirir firme objetividade, uma teoria deve renunciar a qualquer pretensão de neutralidade e, em vez disso, examinar os valores e interesses em que se baseia. Afirmou também que teorias imbuídas de valores gerados “à margem” da sociedade, da experiência ou do ponto de vista de grupos oprimidos implicam um compromisso especial de avançar o conhecimento. A economia feminista – como a anti-racista, a anticlassista/marxista e outras teorias libertadoras – pertence a essa classe de empreendimento teórico. Essa teorização fornece uma ferramenta necessária para a mudança social progressista, exatamente como com freqüência se origina de movimentos feministas, anti-racistas e/ou de movimentos sociais liderados por trabalhadores.

Este artigo amplia o argumento de Harding e propõe que as economias feminista, anti-racista e anticlassista/marxista implicam compromisso maior de avanço do conhecimento e de melhoria da vida social quando integradas em uma economia feminista-marxista-anti-racista. Isso porque cada uma, ainda que superior à hegemônica, é por si só lacunar e incompleta. A construção de um conhecimento verdadeiramente “objetivo” e libertador requer uma teoria que possa analisar a interdeterminação de classe e as diferenças raciais/étnicas e de gênero -redirecionando simultaneamente os vieses classista, racista e sexista da teoria hegemônica. De fato, idealmente poder-se-ia acrescentar outros eixos de privilégio/opressão, como o heterossexismo, a aptidão e o nacionalismo, para alcançar maior objetividade.

A fusão de análises econômicas baseadas em classe, gênero e raça que defendo começou a ocorrer de fato nos últimos dez ou quinze anos (1). A análise de gênero, raça e classe está também rapidamente se tornando padrão nos estudos sobre as mulheres (2). Seguindo a conduta de feministas não-brancas/os, a maioria agora evita, nesses estudos, referências à “mulher” genérica ou a uma “irmandade” de mulheres baseada na experiência comum (3).

Reconhece-se que a condição feminina tem um significado diferente para mulheres de diferentes raças/etnias e classes, e que ignorar raça/etnia e classe significa excluir da análise feminista as experiências de mulheres da classe trabalhadora e ou não-brancas (Baca-Zinn et alii, 1990), exatamente como ignorar gênero resultou numa economia que trata essencialmente das experiências dos homens.

Como expressado tão claramente por Spelman (1988), gênero, raça/etnia e classe não são contas distintas do “rosário” da identidade de alguém, mas sim processos interdeterminantes. Portanto é necessário estudar raça e classe de forma a compreender a opressão de gênero – e a se organizar contra esta. Esses insights precisam ser incorporados à economia feminista.

O projeto que abracei neste artigo está cercado de dificuldades conceituais. A mais importante delas envolve minha defesa da teoria marxista. Dou ao feminismo, ao anti-racismo e ao marxismo posições distintas. O feminismo e o anti-racismo denotam perspectivas normativas, mas não quadros teóricos ou metodologias específicos. Em contraste, o marxismo representa aqui tanto uma perspectiva anticlassista como uma tradição desenvolvida de teorização econômica que vejo como superior à hegemônica teoria neoclássica, tanto em geral como em sua capacidade de se combinar com perspectivas feministas e anti-racistas (4).

Este artigo está organizado em quatro partes. Já que escolhi uma forma de marxismo como meu ponto de partida teórico para entender a economia, começarei na parte I por descrevê-la brevemente. Em seguida, nas partes II e III, darei o arrazoado para que os/as economistas feministas sejam economistas marxistas-feministas-anti-racistas. Finalmente, na parte IV, defenderei que os/as economistas marxistas devem ser economistas marxistas-fe­ministas-anti-racistas (5).

Considerando que minha principal pesquisa foi em torno de gênero e raça/etnia na história econômica dos Estados Unidos, meus argumentos terão um foco nessa área. Contudo acredito que a economia feminista-marxista-anti-racista é a teoria apropriada para a economia em geral, não apenas para estudos raciais/étnicos e de gênero na economia. Vejo-a também como tendo ampla aplicabilidade tanto no mundo “desenvolvido” como no mundo “em desenvolvimento”, desde que sejam levados em conta os diferentes contextos institucionais e históricos dos países.

Finalmente estou ciente de que o termo “economia marxista-feminista-anti-racista” é complexo. E há, obviamente, o problema de destacar somente esses três eixos de opressão. Contudo, num mundo onde muitos dos que se dizem radicais ou marxistas são sexistas e/ou racistas e onde a economia feminista não necessita ser nem anti-racista (Williams, 1993b) nem marxista/anti-classista, utilizar qualquer um desses termos isoladamente é vago e problemático. Daí que, para deixar bem claras as coisas, especifico os três. Nada tenho contra a construção de um termo inteiramente novo que designe os tipos de economia que defendo e que denote essencialmente uma economia anti-opressão ou contra hegemônica.

 

I. PRINCÍPIOS CENTRAIS DA ECONOMIA MARXISTA (ou por que sou uma marxista-feminista-anti-racista, em vez de neoclássica, e o que significa para mim ser marxista)

 

Começo apresentando e defendendo os aspectos que considero centrais na análise econômica marxista. Minha concepção de marxismo é “revisionista”. Descartei aspectos do marxismo clássico que não me foram úteis teoricamente ou que descobri serem incompatíveis com o feminismo e o anti-racismo. Contudo minha versão mantém elementos-chave da economia de Marx que estão em desacordo com quase todas as formas da teoria neoclássica.

1. O marxismo é uma teoria da vida econômica e social na qual as instituições e práticas sociais são vistas como construtoras e diferenciadoras dos membros de uma sociedade. Sua análise começa pelas estruturas sociais, e não pelo indivíduo. A análise econômica de Marx enfoca a construção de diferenças de classe entre indivíduos, mas, como veremos abaixo, ela pode ser estendida para incluir a construção social das diferenças de raça/etnia e de gênero. Nela a “natureza humana” é vista como socialmente construída, daí oferecer a possibilidade de diferentes instituições sociais gerarem um ser mais cooperativo e menos materialista do que o “homem econômico” de hoje. Em contraste, a teoria neoclássica começa com indivíduos maximizadores da utilidade, com dadas preferências, e destas deriva a economia.

2. A teoria econômica marxista é historicamente incrustada: ela reconhece que as instituições e as práticas sociais mudam no tempo e no espaço. Essa historicidade inclui o estudo do presente: o capitalismo não é visto como o fim da História, mas sim como um em uma série de “modos de produção” que será ele próprio suplantado. A mudança histórica não ocorre por acaso, mas como resultado das contradições internas de uma sociedade, especialmente das ações coletivas de grupos oprimidos em resistência á opressão.

3. A teoria econômica marxista é em primeiro lugar qualitativa, focada em explicar a economia como um conjunto complexo de relações sociais (6) e aspecto qualitativo está relacionado à incrustação histórica da teoria marxista. Por exemplo, esta toma o desenvolvimento do capitalismo como o surgimento de um conjunto inteiramente novo de relações e instituições sociais, incluindo a propriedade privada, o capital (visto como uma relação social) e o trabalho assalariado. Essas mudanças históricas qualitativas são subestimadas ou até mesmo ignoradas pelos/as economistas neoclássicos, para os/as quais a passagem do feudalismo ao capitalismo pode ser descrita como um incremento na razão capital/ trabalho.

4. A teoria marxista é uma teoria verdadeiramente interdisciplinar, que reconhece a natureza interdeterminante da economia, do Estado e da família, e convida ao estudo dessas interconexões (7).

5. A análise marxista elucida a construção de classes no capitalismo e os conflitos de classes no interior da empresa, incluindo a exploração e a alienação dos trabalhadores. Colocando de forma simplificada, para Marx, no capitalismo os meios de produção estão concentrados nas mãos de uns poucos indivíduos. Uma pequena porcentagem de famílias, os capitalistas, os possui e controla. A vasta maioria das famílias, a classe trabalhadora, não possui riqueza suficiente para sobreviver ou produzir independentemente; elas precisam destinar um ou mais de seus membros para a força de trabalho. Trabalhadores são explorados, pois recebem menos do que o valor que produzem; a mais-valia é apropriada pelo capitalista. Além disso, eles são “alienados”: privados de qualquer controle sobre seu trabalho (o qual é dirigido pelos capitalistas com o objetivo de lucro e crescimento) ou seus produtos (que são a propriedade do capitalista) e desconectados de outros seres humanos.

Desde os tempos de Marx, as empresas transformaram-se em corporações, a posse do capital foi separada da direção da empresa e a força de trabalho tornou-se cada vez mais estratificada. No período pós-Segunda Guerra Mundial, os/as marxistas trataram da diferenciação dentro da classe trabalhadora, tanto teórica (Walker, 1979; Wright, 1982) como historicamente  (Edwards, 1979; Amott and Matthaei, 1991). Assim o problema estrutural da desigualdade entre capitalistas e trabalhadores foi estendido ao da desigualdade entre trabalhadores. Alguns desfrutam de emprego estável, com excelentes salários e benefícios, e condições de trabalho menos alienadas, enquanto outros labutam para receber menos do que salários de sobrevivência em trabalhos arriscados, instáveis e estressantes. O privilégio na colocação profissional pode ser transferido, como riqueza, através das gerações: famílias gerenciais/profissionais, com salários substanciais e acesso às melhores escolas para seus filhos, podem virtualmente assegurar que estes sigam seus passos na colocação. (Boa parte da desigualdade nas colocações é baseada em gênero e raça/etnia, como discutirei mais tarde.)

Pode-se contrastar essa abordagem com a análise neoclássica de classe. Em resposta a Marx, houve entre os primeiros economistas neoclássicos os que, como John Bates Clark (1899), começaram a desmantelar a concepção de classe comum à sua própria tendência, tanto quanto a marxista. Eles concebiam o capital, o trabalho, a terra e a empresa como fatores de produção, e argumentavam que, se a maioria dos indivíduos possuía um pouco de cada um desses fatores, o foco de análise deveria ser o indivíduo, e não as classes. Desviaram o foco da distribuição desigual da riqueza e do poder para colocá-lo sobre o preço dos fatores e usaram a análise da produtividade marginal para “provar” que os proprietários dos fatores são justamente recompensados (Clark, 1899, caps. 1 e 2; Hunt, 1979, cap. 12). A classe enquanto relação social de poder e exploração entre os ricos e os pobres simplesmente desapareceu. Essa posição foi desde então mantida pelos neoclássicos – com o acréscimo do capital humano ao estoque de fatores de um indivíduo.

É impossível imaginar uma teoria econômica anticlassista alicerçada na economia neoclássica. Em contraste, o marxismo é inerentemente anticlassista – capaz de entender, criticar e oferecer alternativas para as hierarquias econômicas de poder e privilégio que há entre a pequena minoria possuidora da maior parcela da riqueza que produz renda no país e a classe trabalhadora, e mesmo dentro da classe trabalhadora.

6. De acordo com a teoria econômica marxista, a empresa é uma unidade de capital de valor auto-expansível, incluída em e determinada por um processo mais amplo de acumulação de capital. O crescimento e a mudança qualitativa são chaves para a sobrevivência da empresa na competição de capitais. Economias de escala levam empresas maiores a derrotar as menores e finalmente a dominar a economia como um todo. Em vez de serem otimizadoras passivas, as empresas esforçam-se ativamente para transcender os limites que enfrentam. As restrições ao suprimento de mão-de-obra são habilmente superadas com mudanças técnicas, que substituem a mão-de-obra qualificada pela não-qualificada e o trabalho humano pelo trabalho mecanizado (Levine, 1976). As restrições à demanda são combatidas com propaganda, inovação de produtos e obsolescência planejada (Baran and Sweezy, 1966). Quando necessário, as empresas usam seu poder econômico para influenciar o governo por meio de financiamento de campanhas, de lobbies e de ameaça de fechamento ou de transferência para outro país ou estado (Edwards et alii, 1986, cap. 5; Giddens and Held, 1982, parte III).

Portanto, de acordo com Marx, o capital é soberano: a democracia, tanto quanto o Estado, está ausente nas empresas. O que predomina inteiramente é a política capitalista orientada para o lucro, com sua tendência anti-trabalhador, anti-ecológica, pró-militarismo e anti-humanista. A satisfação das necessidades humanas, uma preocupação tradicionalmente feminina e feminista, não é o interesse básico das empresas, mas é levado em consideração somente enquanto um meio para alcançar o fim de mais lucros e crescimento. A riqueza é expandida por meio de um estonteante arranjo de aquisições tecnológicas, em meio a desemprego persistente, pobreza abjeta, mal-estar e alienação sociais profundos, destruição militar e devastação ecológica que ameaça até mesmo a possibilidade da própria vida.

Podemos contrastar também a análise marxista da empresa com o conceito neoclássico dominante. De acordo com a teoria hegemônica, o “problema” econômico está em que os recursos são finitos, enquanto as necessidades são infinitas; o capitalismo é visto como a solução para esse problema. As empresas são essencialmente consideradas serviçais dos consumidores, aos quais são forçadas, por mercados competitivos, a servir da forma mais eficiente. Embora “imperfeições” do mercado, como a concentração ou a diferenciação de produto, diminuam a eficiência e permitam às empresas maior amplitude, elas não são consideradas modificadoras dessa dinâmica básica. Os consumidores podem sempre reassegurar o controle por meio da intervenção do governo. Do mesmo modo, o governo democrático irá gerar políticas apropriadas em resposta ao problema de “externalidades”. O poder do capital das corporações sobre consumidores, trabalhadores e governo – e os conflitos entre sua meta de lucros e crescimento e o bem público – simplesmente desaparece.

7. Diferentemente da economia neoclássica, que considera o feminismo ou outras preocupações políticas como antíteses do trabalho científico (Harding, 1995; Seiz, 1993), a teoria marxista é compatível com uma agenda política explicitamente centrada nos valores. De fato, os valores são intrínsecos aos conceitos marxistas básicos, como a exploração e a alienação. Embora certamente tenham ocorrido exceções históricas surpreendentes (como o Partido Comunista da antiga União Soviética), o marxismo, especialmente no Ocidente, significou um compromisso com a democracia econômica e política, a justiça econômica, a igualdade e a liberdade. Em outras palavras, os/as teóricos/as marxistas não colocam a discussão de valores á margem do campo da teorização em si, como fazem os/as economistas da tendência hegemônica.

8. A teoria marxista acredita na possibilidade de uma transformação econômica e social revolucionária, nascida das contradições do capitalismo e da organização autoconsciente que essas contradições geram (8). Os/As economistas marxistas se vêem como parte desse processo de luta progressista, seja em sua teorização crítica sobre o capitalismo seja em sua defesa de uma alternativa socialista. Em contraste os/as economistas neoclássicos/as vêem “a economia de livre mercado” (o capitalismo) como o fim da História – a mais perfeita organização econômica e a mais compatível com a democracia política (Friedman, 1962).

Os/As leitores/as perceberam que até aqui não mencionei aspectos centrais da teoria econômica marxista, entre eles a teoria do valor trabalho, o materialismo histórico e a inevitabilidade do socialismo. Embora minha versão da teoria marxista possa não ser a predominante, mesmo entre os/as marxistas, o conjunto de concepções que apresentei teve origem em Marx ou seus/suas seguidores/as e compreende aspectos centrais da economia marxista. Certamente essas concepções não são neoclássicas.

Há forte pressão para se suprimir o rótulo de “marxista” nestes tempos conservadores, quando até mesmo o de “liberal” é um epíteto e o marxismo é tanto amplamente distorcido (9) quanto proclamado morto (10). A profissão de fé econômica nos Estados Unidos tem uma história de simultaneamente ignorar a economia marxista (proclamando a economia neoclássica simplesmente como “a economia”) e discriminar violentamente os/as marxistas.

Durante meus anos de estudante de graduação em Yale e como professora não-efetiva em Wellesley os departamentos de economia ele ambos careciam de qualquer marxista com direito a estabilidade, vi-me quase constantemente discriminada pelo meu marxismo, situação com a qual lidava às vezes referindo-me a mim mesma mais vagamente como “não-tradicional” ou “não-ortodoxa”. Desde que fui efetivada, em 1983, simplesmente me autodenominei marxista (marxista-feminista e, mais recentemente, marxista-anti-racista), e passei então a explicar o significado disso para meus chocados, confusos e normalmente desinformados alunos. No final das contas, sou muito menos ligada a esse rótulo do que aos princípios que expus – como quer que eles sejam chamados -, que acredito darem uma base necessária, se não suficiente, para o desenvolvimento de uma economia anticlassista, anti-racista e anti-sexista.

Acredito que os/as economistas feministas e anti-racistas devem alicerçar seu trabalho na tradição teórica marxista, como expus acima, seja por sua natureza anticlassista, seja porque seu quadro teórico é mais coerente com a teorização feminista. Acredito também que os/as economistas feministas devem integrar uma perspectiva anti-racista em sua teorização. Nem o marxismo nem o anti-racismo que defendo independe um do outro ou, por isso mesmo, do feminismo – ou seja, o anti-racismo marxista-feminista que defendo é diferente do simples anti-racismo, assim como o marxismo feminista-anti-racista é diferente do marxismo. Contudo, a fim de elaborar meu argumento de que as três posições precisam estar integradas, terei de escrever como se elas fossem independentes.

 

II. POR QUE OS/AS ECONOMISTAS FEMINISTAS/ANTI-RACISTAS DEVEM SER MARXISTAS

A primeira vista, essa proposta pode confundir. Os/as feministas e os/as anti-racistas criticaram Marx e os/as marxistas por privilegiarem as classes e por praticamente ignorarem as questões de gênero e raça, e enfatizarem a centralidade das relações econômicas (leia-se mediadas pelo mercado) sobre as relações familiares (Hartmann 1979a; Kuhn and Wolpe, 1979). Contudo, ao longo dos anos, marxistas-feministas-anti-racistas trabalharam por tornar o marxismo uma tradição mais adequada ao seu próprio posicionamento (Hartmann, 1979a e b; Benería, 1979; Sargent, 1981; Folbre, 1982; Williams, 1987; Matthaei, 1982, 1992) (11). Os aspectos do marxismo que listei representam, em minha opinião, por várias razões, um ponto de partida e quadro de referência coerentes e frutíferos para a análise econômica feminista e anti-racista, muito superiores à da outra alternativa, a economia neoclássica.

1. A análise econômica marxista oferece aos/às economistas feministas e anti-racistas um quadro teórico compatível com análises de gênero e raça enquanto construtos sociais. O desafio representado pelos argumentos a favor das “diferenças naturais”, com os quais as sociedades justificaram as desigualdades de gênero e raciais/étnicas, é chave para as teorias feministas e anti-racistas. Os/As economistas feministas e anti-racistas querem contra-argumentar que essas diferenças e desigualdades são socialmente construídas e, por essa razão, abertas a mudanças. E é justamente para essa análise que a economia marxista abre brecha. E verdade que ela enfocou a construção de classes. Mas os/as marxistas-feministas-anti-racistas a aperfeiçoaram para mostrar os meios pelos quais as relações e instituições econômicas contribuem para a construção das diferenças de gênero e raça/etnia. Os/As feministas marxistas, por exemplo, desenvolveram e utilizaram o conceito de divisão sexual do trabalho – a atribuição de atividades sociais diferentes e desiguais segundo o sexo – como chave para a construção das diferenças de gênero, incluindo os modos “masculino” e “feminino” aparentemente naturais de ser humano. Teóricos/as raciais mostraram como as divisões raciais do trabalho produziram e reproduziram raças, assim como classes e gêneros diferenciados atravessando as raças (Cox, 1959; Omi and Winant, 1986; Williams, 1987) (12). Além disso, a interdisciplinaridade da teoria marxista abre caminho para a incorporação de processos não-econômicos – como a religião, a psicologia, a família e a política – na análise da construção de gênero e raça (13).

Em contraste, a economia neoclássica oferece pequena possibilidade de incorporar pontos de vista feministas e anti-racistas sobre diferenças de gênero e raciais/étnicas (14). Ela explica essa desigualdade como o resultado de diferenças naturais em aptidões, preferências e “gostos” discriminatórios. Como não teriam origem na economia, os três estariam fora do domínio da teorização econômica. O papel das relações, das práticas e das instituições econômicas na geração e sustentação das diferentes “preferências” ou aptidões de acordo com o gênero e a raça/etnia é, desse modo, negado.

De fato, considerando o seu quadro teórico, é difícil fazer um/a economista neoclássico/a admitir que a desigualdade de gênero ou raça/etnia é de qualquer modo um problema. Nem as diferenças naturais em aptidões nem as diferenças em preferências são vistas como problemáticas pela teoria. Somente o exercício de preferências discriminatórias por consumidores, empregadores ou empregados é problemática, dado que resulta em diferentes pagamentos a trabalhadores com igual capital humano, violando a regra da produtividade marginal já discutida. Qual é a solução para esse problema? O próprio mercado, argumentam os/as neoclássicos/as conservadores/as, como Thomas Sowell (1981); a introdução de mais competição nos mercados, argumentaria a maioria dos/as outros/as neoclássicos/as.

Uma pequena minoria dos/as economistas neoclássicos/as, principalmente feministas e anti-racistas, insiste em que as preferências discriminatórias precisam ser consideradas diretamente, e não deixadas às soluções do mercado. Alguns/mas utilizam teorias de informação incompleta – ou de “discriminação estatística” -para demonstrar que a discriminação pode de fato persistir em mercados competitivos e para defender políticas antidiscriminação (15). Outros/as argumentam que mercados perfeitamente competitivos não existem e não podem existir. Alguns/mas observam como o racismo e o sexismo dos empregadores podem se tornar uma profecia que se realiza por si só, desencorajando mulheres brancas e pessoas não-brancas de investir em capital humano (Bergmann, 1976; Blau and Ferber, 1986). Ademais, esses/as teóricos/as têm pouco a dizer sobre as origens da desigualdade ou das preferências discriminatórias – e, em particular, ignoram o poderoso papel que a economia capitalista tem desempenhado na produção e na reprodução do racismo e do sexismo.

Cresce a literatura feminista de crítica aos conceitos essenciais da economia neoclássica como inerentemente sexistas e androcêntricos. O foco da teoria na maximização da utilidade do indivíduo racional, seu conjunto de “histórias” sobre a vida econômica, sua negação das relações de poder e mesmo sua visão básica de ciência são alvejadas como intrinsecamente sexistas ou androcêntricas (16).

Como Rebecca Blank resumiu em sua discussão dos ensaios de economistas feministas na coleção Beyond Economic Man (1993), “este é um apelo para mudar integralmente a estrutura de pensamento e a atitude analítica dos/as economistas hegemônicos/as em suas pesquisas” (p. 136). Em minha conferência, essas críticas são um maior apoio à minha defesa de que os/as economistas feministas devem estar atentos ao marxismo.

2. Os/As economistas feministas e anti-racistas descobririam que a teoria marxista é mais receptiva do que a neoclássica a revelações feministas de seus vieses branco e masculino, e à sua postura explicitamente política. E verdade que Marx afirmava que sua teoria era objetiva e científica, e, de fato, utilizava essa afirmação para criticar feministas socialistas, chamando-as de “utópicas” (Folbre, 1993). Por outro lado, ele entendeu a importância política das idéias – especialmente o papel das teorias predominantes na racionalização do status quo (17). Daí ser compreensível a crítica feminista e anti-racista ao enfoque privilegiado dado pela economia marxista à classe como protetora dos interesses dos brancos e dos homens. Além disso, pode-se tomar por base o claro compromisso do marxismo pela construção de uma economia mais livre, igual, democrática e justa, para se chegar ao reconhecimento explícito de uma agenda política feminista e anti-racista como motivação de um trabalho teórico.

Em contraste, os/as economistas feministas e anti-racistas têm muito menos possibilidade de fazer progressos dentro da tendência dominante da economia neoclássica. O positivismo e a insistência em uma distinção positivista/normativa dos neoclássicos os/as levam a negar ter qualquer ponto de vista em sua teorização “positiva”, assim como a desvalorizar a obra feminista e anti-racista como “tendenciosa” (Seisz, 1993).

3. Os/As economistas feministas e anti-racistas devem ser marxistas porque o conceito econômico de classe que a teoria marxista desenvolve é indispensável a qualquer entendimento significativo de gênero e raça, assim como para o sucesso das organizações desses dois movimentos.

Os processos de classe diferenciam gênero e raça/etnia de maneira significativa, e as teorias que ignoram essas diferenças são falhas. Por exemplo, as teorias marxistas feministas têm argumentado que o desempenho das mulheres no trabalho doméstico não-remunerado para seus maridos é um aspecto-chave da opressão que elas sofrem. Contudo, algumas mulheres têm conseguido usar o privilégio de classe – normalmente obtido através de seus maridos – para se libertarem desse trabalho. Em contraste, as mulheres pobres têm assumido esse trabalho como empregadas domésticas e, assim fazendo, têm com freqüência sido impedidas de cuidar adequadamente de suas próprias famílias.

De modo semelhante, a opressão racial/étnica não pode ser vista como um fenômeno unitário que atravessa as classes. Os teóricos anti-racistas que ignoram as classes tendem a teorizar sobre pessoas não-brancas como se todas pertencessem à classe trabalhadora – ignorando, por exemplo, os negros livres que possuíam terras e escravos, durante os séculos XVIII e XIX, os capitalistas chineses que enriqueceram com trabalhadores imigrantes e prostitutas compatriotas, entre o final do século XIX e o início do século XX, ou, de fato, a população branca pobre.

Além disso, devido às diferenças de classe na experiência de gênero, os/ as feministas que desejam unir politicamente as mulheres – não somente as das classes média e alta – precisam assumir uma posição ativamente anticlassista em sua teoria e prática, de modo a considerar a experiência das mulheres pobres da classe trabalhadora. Por exemplo, um enfoque feminista sobre o “progresso na carreira” ou o “teto de cristal” gerencial diz pouco às que trabalham como secretárias de mulheres de carreira, faxineiras ou babás. Uma vez que o racismo e o patriarcado colaboram, na maioria das vezes, para criar uma sobre-representação da maior parte das pessoas não-brancas e das mulheres da classe trabalhadora, e entre os pobres, as políticas feministas/ anticlassistas/ anti-racistas são chaves para uma organização feminista e anti-racista bem-sucedida de ampla base.

Por fim, a incorporação de uma posição anticlassista é necessária para a visão política dos/as economistas feministas. Um enfoque isolado de gênero tende a dissolver-se em ações afirmativas e políticas antidiscriminatórias. Mesmo que estas fossem de alguma forma capazes de separar raça e gênero de classe (o que é extremamente improvável), trazendo representação igual de mulheres brancas e pessoas não-brancas na hierarquia econômica, a maioria seria da classe trabalhadora, vivendo à margem da economia, sem controle significativo sobre as condições de trabalho, sujeita ao risco de repentino desemprego e pauperização. Os/As feministas que procuram a “igualdade” das mulheres devem interrogar-se sobre o significado desse termo. Os seres humanos são desiguais. Essa igualdade significa uma igual distribuição das mulheres acima da hierarquia de classes e em todas as ocupações? Pois isso representa, na verdade, um apelo pela maior desigualdade entre as mulheres e certamente não diz respeito às necessidades das oprimidas por razões de classe e raça. E preciso fazer a mesma pergunta aos movimentos que lutam pela “igualdade” racial.

4. Os/As economistas feministas e anti-racistas devem basear suas análises na teoria marxista – e não na neoclássica -, porque somente a primeira oferece a possibilidade de imaginar a construção de um sistema econômico melhor (18). E é precisamente isso que os/as economistas feministas e anti-racistas devem fazer. Pois, na realidade, as maiores vítimas do capitalismo não são, como propôs Marx, os homens brancos da classe trabalhadora, mas sim as mulheres pobres não-brancas, especialmente as mães solteiras e seus filhos. Mesmo mulheres de raça/etnia e classe privilegiadas começaram a questionar seu objetivo inicial de conseguir os privilégios do homem branco, dedicando-se ao progresso competitivo nas corporações e pagando pelo cuidado de seus filhos. A teoria marxista oferece um esquema no qual os/as economistas feministas e anti-racistas podem trabalhar para articular meios com os quais se possa construir uma economia nova, mais socializada, democrática e cooperativa – uma economia na qual gênero e raça/ etnia sejam ambas reconstituídas de maneira não-hierárquica ou completamente eliminadas (ou seja, reduzidas a sexo biológico e diferenças na cor da pele e nas feições) e a conexão economia-família possa ser reestruturada de forma que as mulheres e as crianças não fiquem em desvantagem. A teoria marxista oferece ainda uma receita para tal transformação: ação coletiva, alimentada por uma ciência social libertadora.

 

III. POR QUE OS/AS ECONOMISTAS FEMINISTAS DEVEM SER ANTI-RACISTAS

Os/As economistas feministas que ignoram os aspectos raça e racismo encaram problemas que são análogos mas distintos dos problemas gerados pelo fato de se ignorar o aspecto classe.

1. A questão de raça/etnia, assim como a de classe, diferencia a experiência de gênero de forma significativa, daí não dever ser deixada de fora da análise feminista. Esse argumento foi convincentemente apresentado por feministas não-brancas a economistas feministas marxistas no início da década de 1980. As análises feministas em que o patriarcado é considerado um sistema no qual os homens se uniram para dominar as mulheres e o feminismo um movimento no qual as mulheres se uniram contra os homens ignoram o fato de que os homens negros não têm poder patriarcal sobre as mulheres brancas e de que as mulheres negras raramente sentem uma unidade de interesse com as brancas, que freqüentemente têm sido suas inimigas de classe e de raça (Joseph, 1981). De fato, longe de serem aliadas das mulheres brancas, em vista da experiência comum de empregadas domésticas e babás, as afro-americanas em sua maioria trabalharam nos lares e cozinhas de mulheres brancas até 1930 (Amott and Matthaei, 1991, p. 324). Além disso, as análises feministas da opressão das mulheres dentro da família perdem relevância se ignoram o suporte que a família e a comunidade oferecem às mulheres negras numa sociedade racista, assim como os efeitos dilaceradores da opressão racista branca (por exemplo, na escravidão, no sistema de restrição, nas leis de imigração racistas) sobre as famílias não-brancas (Glenn, 1985; Amott and Matthaei, 1991, p. 16). A teoria feminista não pode analisar adequadamente as relações de gênero e a opressão sexista se não for também anti-racista.

2. Se quiserem avançar na liberação das mulheres, os/ as economistas feministas precisam fazer das experiências e interesses das mulheres de diferentes grupos raciais/étnicos não-brancos uma parte central de sua teorização e estratégia. Se eles/as ignorarem a opressão racial/étnica (e de classe), suas teorias acabarão por representar simplesmente o ponto de vista de mulheres brancas (das classes média e alta), limitando seus aliados políticos a esse grupo. Os/As economistas feministas que não levem em conta a questão racial podem representar uma visão liberadora do ponto de vista de gênero, mas que é, por outro lado, privilegiada, hegemônica, do ponto de vista de raça (e de classe). Em outras palavras, suas teorias permanecerão implicitamente, se não explicitamente, racistas e classistas. Podemos legitimamente criticar as teorias dominantes por serem cegas ao gênero e sexistas, e depois desenvolver teorias que são cegas à raça e racistas? Se querem lutar por justiça social ou esperam organizar-se com êxito contra o sexismo e outras opressões, os/as feministas não podem simplesmente ignorar a injustiça do racismo.

 

 

IV. POR QUE OS/AS ECONOMISTAS MARXISTAS DEVEM SER FEMINISTAS E ANTI-RACISTAS

Termino meu ensaio dirigindo-me à maioria dos/as economistas marxistas, que continuam a ignorar os aspectos gênero e raça/etnia em suas análises ou a encará-los como pertencentes somente aos assuntos das “mulheres” ou das “pessoas não-brancas”. Em minha opinião, os/as marxistas não podem entender o funcionamento do capitalismo – ou efetivamente trabalhar por sua transformação em socialismo – sem análises de gênero e raça/etnia. As diferenças e desigualdades de gênero e raça/etnia não somente precedem o capitalismo como foram incorporadas a este por meios-chave (19). Em outras palavras, todos os aspectos da economia capitalista estão imbuídos de gênero e raça (20); uma teoria e prática que ignora isso é inerentemente falha.

1. O capital incorpora por si só princípios racistas e patriarcais. O capitalismo começou como competição entre linhagens familiares patriarcais, proprietárias e brancas na Europa Ocidental e em suas colônias. Em suas fases iniciais, a acumulação de capital tomou a forma de esforços competitivos de linhagens para melhorar suas posições sociais. Era atribuição do adulto branco proprietário dirigir essa competição, com a ajuda dos filhos e esposas. Com o passar do tempo, mais e mais homens brancos foram proletarizados; sua competição branca masculina tornou-se o “ganha-pão” (como era chamada então essa atribuição) no mercado de trabalho. E como a empresa familiar foi substituída pela corporação, a competição branca masculina institucionalizou-se como competição de capitais corporativos. A conexão do capital com a masculinidade branca fornece importantes insights sobre seu funcionamento: seu desligamento do objetivo de realmente satisfazer necessidades (que é visto como feminino); sua dedicação ao crescimento e a tornar-se maior e melhor que o outro; seu vínculo com hierarquias internas; e seu desrespeito para com as considerações ambientais (Matthaei, 1982, cap. 5, 1987 e 1991; Merchant, 1980).

Os/As marxistas devem ademais considerar o fato de que a acumulação primitiva de capital nas mãos dos europeus envolveu a matança, o deslocamento e a subordinação de pessoas não-brancas em todo o mundo (21). Nesse processo, foi construída a “raça”, em sua concepção moderna, incluindo o “desenvolvimento do subdesenvolvimento” nos países do Terceiro Mundo, assim como um sistema racial/de classe nos Estados Unidos (Cox, 1959, parte III; Blaut, 1989; Rex, 1982; Amott and Matthaei, 1991, parte III).

2. Os processos de classe por meio dos quais os trabalhadores são criados e subordinados à empresa estão imbuídos dos aspectos raça e gênero. Como assinalaram alguns historiadores econômicos, a classe trabalhadora dos Estados Unidos desenvolveu-se como uma classe trabalhadora branca e masculina. No Sul e no Leste, alguns dos primeiros esforços de organização dos trabalhadores brancos foram feitos no sentido de excluir os negros de ambos os gêneros e as mulheres brancas de seus empregos; na Califórnia, o Partido dos Homens Brancos Trabalhadores organizou-se com o objetivo específico de excluir imigrantes chineses da força de trabalho e de barrar novas imigrações (Amott and Matthaei, 1991, p. 155-6 e 203; Hartmann, 1979b). A inscrição no emblema do sindicato significava originalmente, na verdade, “feito por um trabalhador branco” (Hill, 1989, p. 200-1).

O racismo e o sexismo das organizações da classe trabalhadora não desabrocharam simplesmente das cabeças de trabalhadores brancos do sexo masculino. Ao contrário, esses trabalhadores construíram e transformaram concepções existentes de gênero e raça/etnia freqüentemente em resposta a tentativas dos capitalistas de colocar mulheres e pessoas não-brancas nos locais de trabalho, como fura-greves ou como substitutos/as não-qualificados/as para trabalhadores qualificados cujos trabalhos estavam sendo transformados pela mecanização (Williams, 1987). Mediante processos complicados e interconectados de classe, raça/etnia e gênero, desenvolveu-se uma estrutura laboral na qual os trabalhos foram não somente tipificados por sexo e raça, mas também criados para incorporar raça e gênero em sua verdadeira essência. Pense, por exemplo, em secretária ou enfermeira (Amott and Matthaei, 1991, cap. 10).

Infelizmente, muitos/as marxistas ainda encaram raça e gênero como questões de importância secundária no processo de luta de classes – por exemplo, simplesmente como resultados de uma estratégia capitalista para dividir a classe trabalhadora, que não trazem benefícios reais aos trabalhadores brancos do sexo masculino (Reich, 1981) (22).

3. Adotar uma perspectiva feminista permitiria aos/às marxistas reconhecer a importância econômica da família, que é negligenciada pela análise materialista tradicional (veja a nota 8). É claro que esse reconhecimento é chave para qualquer entendimento da economia da desigualdade de gênero. Mas é também fundamental para a compreensão integral de outros aspectos-chave do funcionamento do capitalismo. O trabalho doméstico, enquanto não-remunerado, assegura a reprodução diária de todos os membros da sociedade; mais ainda, sua organização em famílias nucleares isoladas no capitalismo reproduz a fragmentação da comunidade tão danosa ao tecido social. A junção de rendas para um fim comum e a transmissão de bens de geração a geração de uma família reproduzem a classe, assim como a desigualdade racial/étnica. As práticas parentais – em particular, a autoritária – preparam as crianças para a participação em nossas instituições políticas e econômicas não-democráticas (Miller, 1981). Os/As marxistas ignoram esses processos relacionados à família colocando em grande risco muito de sua teoria e prática.

4. Os/As marxistas devem ser feministas e anti-racistas, se querem ter uma análise e participação adequadas em movimentos políticos progressistas. A visão marxista tradicional da atividade revolucionária está centrada na organização dos trabalhadores. No início dos anos 1970, os/as marxistas rotularam a organização feminista de “reformista” e repreenderam as ativistas desse movimento por dividirem a classe trabalhadora, aconselhando-as a adiar sua organização baseada em gênero para depois da revolução socialista. (Eu mesma originalmente tornei-me ativa em organizações feministas de raiz popular como uma marxista tradicional, acreditando que conseguiria converter feministas em socialistas.) Contudo, nos últimos vinte anos, muitos/as marxistas, eu inclusa, foram convertidos/as por feministas e anti-racistas para uma percepção da importância das organizações anti-sexista e anti-racista em si mesmas como chave para a organização no local de trabalho.

Como assinalaram teóricos/as dos novos movimentos sociais (Epstein, 1990), os movimentos radicais de hoje – feministas, anti-racistas, ambientalistas, homossexuais – não são essencialmente baseados no aspecto classe, embora incluam muitos/as esquerdistas e freqüentemente envolvam críticas radicais ao capitalismo. E, se é que a organização dos trabalhadores deve ser bem-sucedida, as questões de raça/etnia, gênero, assim como das divisões nacionais, deverão ser tratadas e organizadas desde antes.

5. A incorporação de uma perspectiva feminista e anti-racista ajudaria os/as marxistas a corrigir sua teorização sobre o socialismo. O abandono da propriedade estatal e do planejamento centralizado nas antigas União Soviética e na Europa Oriental levou os/as economistas hegemônicos, entre outros/as, a anunciar a “morte do socialismo” e a proclamar o triunfo do capitalismo. Todavia é óbvio que as flagrantes falhas do capitalismo persistem. Agora mais do que nunca é importante insistir em que deve haver um caminho melhor.

Quase todos/as os/as marxistas parecem agora concordar em que nossa visão do socialismo precisa ser radicalmente revista. Grande parte do revisionismo, contudo, centrou-se numa reconsideração do papel do mercado (Nove, 1991; Albert and Hanel, 1991 a e b; Bradhan e Roemer, 1993; Roemer, 1994). Pouca ou nenhuma atenção foi dedicada a rever a visão socialista de uma perspectiva feminista e anti-racista (23). Muitos/as marxistas agora adotam um socialismo de mercado centrado na competição entre cooperativas de trabalhadores sem criticar o princípio machista de competição egoísta que essas relações de mercado incorporam. Além disso, houve pouca ou nenhuma discussão de como tais cooperativas podem ou não reproduzir as desigualdades de gênero e de raça/etnia. O casamento, a organização do trabalho doméstico, a construção social da relação entre pais e filhos e a herança quase não receberam atenção. Os/As marxistas devem corrigir o viés masculino branco em suas teorias de socialismo, se é que essas teorias querem desenvolver uma alternativa verdadeiramente liberadora ao capitalismo.

Em resumo, argumentei que a economia feminista deve levar em conta as questões de raça e classe, na medida em que o gênero não existe independentemente de classe e raça. Mesmo tendo sofrido de cegueira em relação a raça e gênero, a teoria marxista é o ponto de partida mais apropriado para tal análise econômica feminista. A integração teórica do marxismo, do feminismo e do anti-racismo permite o desenvolvimento de uma compreensão mais abrangente e mais liberadora de nossa economia.

Há uma grande necessidade de tal teorização no momento atual. Nos Estados Unidos, a culpa pelos problemas da economia capitalista – de desemprego persistente, de declínio dos salários reais, de pobreza opressora, de destruição ambiental e de criminalidade – está sendo atribuída às mães solteiras que recebem auxílio do governo, às pessoas não-brancas, aos trabalhadores “preguiçosos” ou “arrogantes” e ao excesso de intervenção do Estado na economia. Sob a aparência externa de “reforma”, o Congresso controlado pelos republicanos está rapidamente implementando sua agenda política classista, racista e sexista.

Para fazer reverter essa tendência, os/as progressistas precisam superar a política de identidade divisionista dos anos 1970 e 1980 em direção a um movimento – ou coalizão de movimentos – ao mesmo tempo feminista, anti-racista, pró-trabalhador e pró-ambiente. E, para transcender as limitações inerentes a políticas liberais, esse movimento deve começar a impulsionar as mudanças radicais e sistemáticas que irão tornar nossa economia verdadeiramente democrática e justa.

 

Notas:

(1) Veja, por exemplo, meus estudos recentes (1987; com Amott, 1991; e 1992), assim como o de Williams (1987, 1993a e b), Amott (1993) e Albelda and Tilly (1994).

(2) Por exemplo, Laurel Richardson e Verta Taylor, os editores de uma antologia popular de estudos de mulheres, Feminist Frontiers 11 (1989), escrevem no prefácio: “Os artigos de Feminist Fontiers II sublinham que diferenças culturais, raciais, étnicas e outras são difusas e difusamente fazem intersecção com as de gênero”.

(3) Veja especialmente Hull et al. (1982); Josephs (1981); Moraga and Anzaldua (1981); e bell hooks (1984).

(4) Certos tipos de economia institucional, especialmente o institucionalismo radical, oferecem insights importantes e são também terreno fértil para a economia feminista-anti-racista-anticlassista (veja Jennings, 1993). Contudo, vejo o marxismo como um ponto de partida melhor, devido a seu alicerçamento teórico mais forte e sua posição explicitamente anticlassista.

(5) Devido a restrições de espaço, não apresentarei aqui o argumento vinculado e igualmente importante de que os/as economistas anti-racistas devem ser economistas marxistas-feministas-anti-racistas. Da literatura a respeito, veja bell hooks (1984), West (1993) e Hull et al. (1982).

(6) Houve uma tendência recente à matematização da teoria marxista, de Morishima (1972) a Roemer (1981). Embora isso possa ter conseguido esclarecer de alguma forma a teoria, assim como tido alguma habilidade para se comunicar com a teoria hegemônica, acredito que, em geral, o vôo em direção à matemática é problemático para a teoria marxista. Mas este não é o lugar para se fazer essa argumentação.

(7) Na verdade, a visão marxista tradicional dessas inter-relações, sistematizada em materialismo dialético ou histórico, conceituou uma sociedade como um “modo de produção” no qual as “forças e as relações sociais de produção” da economia eram mais ou menos determinantes das esferas políticas e familiares “superestruturais”. Os/As marxistas-feministas criticaram o materialismo histórico por sua negligência em relação à família, criando visões diferentes das relações entre economia, família e política, e desafiando o limite entre economia e família que a teoria incorpora (Kuhn and Wolpe, 1979; Sargent, 1981; para uma revisão a respeito, veja Matthaei, 1992). Cheguei a rejeitar o materialismo histórico em si mesmo, embora retendo a consciência teórica de Marx das distintas qualidades das relações sociais nas diferentes esferas da vida social, assim como uma compreensão de sua interdependência.

Pode-se argumentar que a economia neoclássica está se tornando mais interdisciplinar. Certamente, no período pós-Segunda Guerra Mundial ela estendeu sua análise do comportamento de maximização da utilidade na família (Becker, 1981) e na política (Alesina, 1987). Contudo, isso simplesmente transforma todas as relações sociais em maximização da utilidade; as diferenças qualitativas entre as esferas desaparecem. Assim, Becker está insensível ao fato de que a divisão sexual do trabalho entre casa e mercado se traduz em desigualdade de gênero em termos de poder e de status.

(8) Karl Marx e Friedrich Engels pensavam que tal mudança revolucionária era inevitável; os/as marxistas do século XX são menos otimistas. Não estou argumentando aqui que as contradições no capitalismo são baseadas somente em classe; em meu ponto de vista, o capitalismo dos Estados Unidos é inerentemente sexista e racista, e desse modo os movimentos feminista e anti-racista, assim como o ambientalista e outros, são produtos de suas contradições.

(9) O fato de o termo marxista (como feminista) ter sido distorcido pelos poderosos, assim como usado por indivíduos e grupos com que discordo profundamente por suas tendências stalinistas, não constitui para mim uma razão para abandoná-lo. Ao contrário, mantenho o rótulo marxista (e feminista) e luto contra o que considero um uso inadequado desses termos.

(10) Um recente artigo na revista dominical Boston Globe (Roche, 1995) começava corri uma fotografia minha, sob o título “Os últimos marxistas” (e com a palavra “últimos” impressa em vermelho!).

(11) As feministas que não atuam na área econômica às vezes usam o termo “feminista-socialista” para conotar o que chamo de “feminista-marxista”; veja, por exemplo, Jaggar (1978). Havia também uma tradição das feministas socialistas (não-marxistas) do século XIX, que Marx denominava socialistas utópicas (Folbre, 1993B).

(12) Para uma boa introdução às análises marxistas ele raça/etnia, veja Cherry (1989, cap. 4).

(13) Três antigas coleções nas quais feministas defendiam a incorporação do feminismo num enquadramento marxista são as de Eisenstein (1979), Sargent (1981) e Kuhn and Wolpe (1979). Muitos/as defendiam uma análise de sistemas dual – ou seja, que o patriarcado deveria ser visto como um sistema que coexiste com o capitalismo. Fergurson (1984), por sua vez, defendia uma análise de três sistemas, para incorporar raça, gênero e assuntos de classe. Fui contra a análise de sistemas múltiplos (1992), afirmando que o capitalismo deve ser visto como inerentemente patriarcal e racista.

(14) Para uma avaliação da ausência de raça e gênero nos textos da economia neoclássica, veja Feiner and Roberts (1990). Para uma revisão de críticas feministas da análise neoclássica da família e da desigualdade de gêneros no mercado de trabalho, veja Seiz (1992).

(15) A “discriminação estatística” ocorre quando, para evitar o custo de obter mais informação, os empregadores julgam cada candidato/a baseado nas características de seus grupos, donde assumem que as mulheres e as pessoas não-brancas são menos produtivas ou menos confiáveis se comparadas a um homem branco. Contudo, esse processo não é em si mesmo uma fonte original de desigualdade de gênero ou de raça/etnia.

(16) Para uma das análises mais antigas, veja Folbre and Hartmann (1988); veja também Nelson (1993), Strassmann (1993), Seiz (1992), England (1993) e Mac-Closkey (1993). Para um estudo do desenvolvimento do viés masculino na economia neoclássica antiga, veja Pujol (1992).

(17)Veja Resnick and Wolff (1987) para urna exploração e interpretação pós-moderna da epistemologia de Marx, a qual, contudo, privilegia classe como o “ponto de partida” apropriado.

(18) Não quero com isso dizer que se deva evitar aprender dos escritos das feministas utópicas, dos teólogos da libertação e de muitos/as outros/as – quero apenas sublinhar que a teoria neoclássica, com seu foco quantitativo e sua cegueira para a maioria dos problemas mais significativos do capitalismo, não oferece uma base frutífera para teorizar sobre economias alternativas e superiores.

(19) Veja Matthaei (1987 e 1992, especialmente as p. 134-7), para uma apresentação mais detalhada do argumento desta seção.

(20) Omi and Winant (1986) abordam esse ponto sobre raça em Racial Formation.

(21) Para um resumo desse processo pela perspectiva das mulheres, veja Amott and Matthaei, 1991, parte II.

(22) Veja Albelda and Tilly (1994) para uma excelente crítica e abordagem da reconstrução da estrutura social da acumulação, a partir de uma perspectiva feminista e anti-racista, e Williams (1987, 1993a) para uma apresentação cuidadosa e crítica das análises marxistas da desigualdade racial.

(23) Há uma história de críticas feministas aos países “socialistas” existentes, sendo a mais recente a de Randall (1992). Contudo, os/as feministas e anti-racistas têm estado visivelmente ausentes nas recentes discussões de modelos socialistas. Entre os que propõem tais modelos, Albert and Hahnel (1991a) ao menos reconhecem que gênero e raça são questões, mas essencialmente as ignoram.

 

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* Trata-se originalmente do ensaio “O que significa ser ainda marxista”, apresentado numa sessão do Encontro Anual da Associação Econômica Americana, de 1994, que foi revisto levando em conta os úteis comentários feitos por Diana Strassmann, Nancy Folbre e dois outros revisores (anônimos), para ser publicado na Feminist Economics (vol. 2, n. 1, spring 1996, Glasgow, U.K., Routledge). Traduzido por Maria Giuseppina Curione.

** A autora pertence aos quadros do Department of Economics, Wellesley College, Wellesley, MA 02181, USA (e-mail: jmatthaei@lucy.wellesley.edu).

 

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